Mari  Silva Alexandre

Sou flor, Sou amor. Sou Dor, Sou amor. É nisto que me resumo.

Textos


Foi pedido às alunas  que fizessem um Memorial, como trabalho para a aula de Antropologia valendo 25 pontos. Nesse Memorial deveria ser mencionado tudo o que se relacionasse ao tempo de cada estudante vivido durante o período do curso de Pedagogia, e o que levou  a essa escolha. Como orientação na preparação do trabalho foi enviado um manual de instrução para o e-mail de cada aluno(a) e acrescentado pelo professor de Antropologia que era importante que esse trabalho tivesse relação com as escolas Antropológicas, o que faz todo o sentido.
Por hábito e por responsabilidade, costumo tratar tudo com seriedade e por esta razão me empenho ao máximo para fazer o que me é pedido, respondendo sempre com clareza e discernimento a proposta reivindicada.
Com satisfação e muito estudo,  fiz um excelente trabalho que ao seu término me fez sentir orgulho do resultado.
Devo acrescentar que do dia em que o trabalho foi pedido até a da data de entrega, havia tempo suficiente para a dedicação e empenho em fazer um bom trabalho dentro das perspectivas que se pode esperar de um bom Memorial.
Transcorreram os dias e algum tempo antes do trabalho ser apresentado o professor de Antropologia informou a turma de que cada estudante teria um tempo de três minutos para fazer sua apresentação.
Por eu não me adaptar em ouvir as coisas descabidas sem me manifestar, obviamente eu contestei. Por fim, o professor estendeu de três para dez minutos o tempo de duração de cada apresentação do Memorial.
Os trabalhos apresentados ficaram bonitos, mas não eram exatamente o que fora pedido. No entanto, o professor se mostrou bastante satisfeito. As estudantes apresentaram slides com fotos que  foram feitas durante o período do curso, com algumas coisas escritas que, na maioria das apresentações, não davam para ser lidas e me pareceu que não havia importância alguma em desvendar o que continha naquelas letras que passavam rapidamente pela imagem.  Todas as apresentações de  slides continham  fotos e um fundo musical de escolha livre do aluno(a).
Assistindo às apresentações, me senti uma verdadeira idiota por ter levado tão a sério a elaboração do meu Memorial.
Se soubesse que não seria “bem assim”, eu teria feito uma exposição de fotos com uma escolha musical para tocar ao fundo e tudo estaria perfeitamente resolvido.
Enquanto os trabalhos estavam sendo apresentados eu fiquei pensando no que fazer, como proceder e, por fim,  tomei a decisão de não mostrar o meu Memorial para a turma em forma de apresentação, desde que eu já o havia entregue para a avaliação do professor. Percebi que era totalmente desnecessário passar pelo constrangimento de apresentar algo tão diferente dos trabalhos que estavam sendo apresentados, onde eu percebi total sintonia, todos os trabalhos eram bem parecidos, somente eram modificadas as frases e as fotos, pois numa sala de aulas acaba se formando grupos de preferências destes e daqueles.
Diante daquele quadro eu me senti na obrigação de não mostrar o meu trabalho, tão diferente dos demais trabalhos.
Eu voltei para casa sentindo alívio e tendo  certeza de que  tomei a decisão certa, porque o meu maior compromisso é com a verdade, com a franqueza e com os meus princípios. Jamais farei algo que não concordo para agradar alguém, ou para não sofrer punições.
Aprendi tantas coisas inúteis no meu curso de pedagogia e a maior delas é a de que o pedagogo deve ajudar a formar cidadãos autônomos para a sociedade, quando na verdade a sociedade se recusa a aceitar os seres pensantes, reflexivos, contestadores. A sociedade gosta é de pessoas que obedeçam. E quem é essa sociedade a qual estou me referindo? A sociedade da qual me refiro é aquela que está acima de você. Na escola ela é representada pelo diretor; na sala de aula pelo professor, na família pelos pais; no país pelo presidente da República. Enfim, é a chamada hierarquia que atravanca a individualidade do ser. Pensar é possível, desde que pensemos o que é esperado de nossos pensamentos.
Eu não quero ter de me acostumar a ser uma vaquinha de presépio.


*Deixo claro que as apresentações dos trabalhos das alunas (colegas), foram lindos e emocionantes. 
Mari S Alexandre
Enviado por Mari S Alexandre em 26/06/2015
Alterado em 26/07/2015
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